O "exército" de taças se prepara para "enfrentar" os vinhos
Em algumas raras ocasiões, a degustação de vinhos transcende o simples ato de beber o conteúdo das taças e apreciar o seu conteúdo. Nelas, a história por trás das garrafas, da qualidade dos vinhos e das pessoas reunidas, tornam aquele momento único!
Assim aconteceu com esta pequena vertical de um "obscuro" vinho argentino. Obscuro porque nunca recebeu uma avaliação sequer das principais publicações mundiais sobre vinho como a Wine Advocate (Parker), Wine Spectator ou Decanter. Obscuro porque dificilmente será encontrado nas grandes cadeias de lojas de vinho de Buenos Aires, onde todos os enófilos saem carregados de "altos pontos RP e WS". E, finalmente, obscuro porque não é, incrivelmente, importado para o Brasil há muitos anos (a extinta Gomez Carrera era quem os importava).
1ª vertical: 1985-1990
2ª vertical: 1992-1997
Depois de realizar, em dezembro de 2010, duas degustações verticais desse "obscuro" Montchenot (veja nos links) 1985-1990 e 1992-1997, pude ir além nesta terceira vertical, reunindo garrafas das décadas de 1970, 1980 e 1990, trazidas diretamente da reserva da vinícola, algo que lhes conferiu o melhor estado de conservação possível. A história destes vinhos já foi bem descrita no post anterior (veja neste link).
Os felizardos degustadores (tinha até uma dupla de "ferraristas"...)
Para degustar e harmonizar estes vinhos, nada mais justo e apropriado do que um restaurante típico argentino, no caso, o excelente Argento Parrilla, da Praia do Canto, onde saboreamos empanadas e todos os tipos de cortes de carnes argentinas.
Impressões de degustação:
1973 - Com quase 40 anos de idade, encontrá-lo ainda vivo já bastaria a sua prova. Mas com seus aromas tênues de frutas vermelhas, madeira velha e notas florais e de mel, um paladar sedutor, repleto de taninos finíssimos e uma acidez sutil que o equilibrava maravilhosamente, só nos cabia apreciá-lo com a máxima atenção. Sublime!
1978 - Esse foi o preferido de todos! Acho que os argentinos sabiam que iriam ganhar sua primeira Copa do Mundo nesse ano... Ele reuniu com maestria todos os elementos que fazem de um vinho evoluído, uma preciosidade para qualquer enófilo: aromas complexos, persistentes e intensos, paladar rico, elegante e muito duradouro, que permanece minuto a fio na boca. Soberbo!
1983 - O mais contido do painel, mas não menos esplêndido, com aromas refinados de couro, madeira velha e um leve mentolado. Ótima acidez, taninos sedosos e lapidados e equilíbrio perfeito.
1985 - Esta foi a safra que eu mais havia provado (5 vezes) e a cada ano que passa, parece ainda melhor. Aromas intensos de couro, madeira velha, notas de cera de abelha, mentol e um pouco de tabaco. Paladar rico, com taninos ainda bem firmes e fina acidez, que se aglutinam com grande precisão. O final de boca mais longo entre todos. Foi páreo duro para o 1978 e, pessoalmente, considerei-o tão soberbo quanto o 1978.
1992 (magnum versão 15 años) - A escolha da garrafa magnum se deu para observar a outra importante faceta desse vinho: sua harmonização com os suculentos cortes de carne argentina. Com "apenas" 20 anos de vida, esta garrafa mais parecia uma criança perdida no meio dos adultos, com aromas vigorosos de frutas vermelhas frescas, baunilha e notas mentoladas. Na boca, seus taninos ainda estavam ligeiramente encorpados, mas bem equilibrados pela acidez sob medida. Obviamente, não poderia concorrer com seus irmãos mais velhos, mas desempenhou seu papel brilhantemente.
Fiquei muito feliz em poder partilhar estes vinhos maravilhosos com um seleto grupo de enófilos, pessoas que certamente ficaram encantadas com esta verdadeira joia da vinicultura argentina.
Para resumir, após ter tido o privilégio de degustar pouco mais de 20 safras diferentes deste vinho, posso afirmar com letras maiúsculas: É O MELHOR VINHO ARGENTINO QUE JÁ BEBI!
Agora que minhas garrafas estão acabando, só me resta esperar pela "coragem" e ocasião ideal para abrir a maior de todas as verticais: 1960 (1ª safra deste vinho), 1970, 1975, 1985 (todas da série especial 20 años), 1990 e 1995 (série regular com 10 anos). Só posso adiantar que uma garrafa do 1960 foi aberta e estava perfeita após 52 anos! Mas isso já é uma outra história...