segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Do Tormentas Fulvia ao Musigny Grand Cru: uma incrível viagem pela paleta de cores, aromas e sabores da Pinot Noir!

13 Pinot Noirs depois...

O que deveria ser uma didática degustação de "Pinot Noirs fora da Borgonha", centrada em vinhos da Nova Zelândia, EUA, Chile e Argentina, evoluiu inesperadamente para um grande painel de vinhos que incluíram o Pinot Noir brasileiro de Marco Danielle (Fulvia 2009), duas ótimas safras antigas (1992 e 1996) de Borgonha da apelação 1er Cru Savigny Les Beaune e duas garrafas dos fenomenais Grands Crus Musigny e La Grand Rue.

Iniciamos os trabalhos com os rótulos chilenos presentes: o Casa del Bosque PN Gran Reserva 2008, o Matetic EQ PN 2005 e o Undurraga TH Leyda PN 2011 (eleito o melhor PN em sua categoria no Decanter World Wine Awards).

Casa del Bosque Gran Reserva 2008 (Vale Casablanca): visual vermelho rubi escuro, com aromas de frutas vermelhas maduras e baunilha. Paladar frutado, com taninos médios e acidez discreta. Definitivamente um PN pesado, num estilo muito comum de ser encontrado no Chile.

Undurraga TH (Terroir Hunter) 2011 (Vale Leyda): visual rubi claro, com aromas de frutas vermelhas frescas e silvestres, com ligeiro traço herbáceo. Paladar fresco, arisco e cheio de uma vigorosa acidez. Não foi à toa que obteve distinção na premiação da revista Decanter. Belo exemplar da região de Leyda, cheio da desejada tipicidade da casta.

Matetic EQ 2005 (Vale San Antonio): visual ainda rubi escuro que não dá a menor pista de sua idade. Aromas de frutas vermelhas confitadas, um pouco de caramelo e notas defumadas. Paladar intenso, com muito corpo (14,5% de álcool) e acidez suficiente para equilibrá-lo. Muito bom dentro de suas características, capaz de agradar os amantes de uma PN mais "Novo Mundo", mas não é o meu caso. Fica no meio-termo entre os dois anteriores.

Tormentas Fulvia 2009 (Encruzilhada do Sul): Após essa primeira "bateria", inseri (às cegas) essa garrafa do já esgotado PN do Atelier Tormentas. Um vinho capaz de despertar paixões em muitos apreciadores e o oposto em tantos outros. Fico no primeiro time. Visual rubi clarinho, cheio de aromas do bosque (frutas silvestres, terra úmida e cogumelos) e finas notas de ervas. Paladar delicado, sedutor e com acidez refinada. Um vinho bastante original e que consegue exibir a tipicidade da Pinot Noir.

Retomando a degustação "original" passamos para os dois exemplares da Nova Zelândia, considerada por muitos como a casa dos melhores PN's fora da Borgonha. Dali degustamos os magníficos Felton Road Bannockburn 2010 e Rippon 2006.

Felton Road Bannockburn 2010 (Central Otago): visual rubi médio e brilhante, repleto de aromas de cerejas e groselhas silvestres, traços mentolados e herbáceos e ligeira nota floral. Paladar amplo e elegante com taninos potentes mas sedosos e que se balancearam divinamente com sua acidez refrescante. Um dos melhores exemplares que degustei da Nova Zelândia. Para comprar e guardar na adega por mais uma década.

Rippon 2006 (Central Otago): visual rubi mais escuro e denso que o anterior, com aromas de frutas vermelhas maduras, discreta baunilha e notas de canela e flores. Paladar expressivo, com frutado intenso, acidez mediana e final de boca longo e sedoso. Para resumir, um PN bem ao estilo Parker (não à toa recebeu 95 pontos dele), mas que conseguiu preservar algo da finesse da casta, sem tornar-se enjoativo na boca.

Mudando de continente, seguimos para mais dois PN's dos EUA, ambos da Califórnia, o que já  nos prepara para vinhos mais focados na potência e exuberância (infelizmente, não consegui um bom exemplar do Oregon ou de Washington).

Freestone 2007 (North Coast - Sonoma): visual rubi escuro, com aromas finos de frutas vermelhas silvestres, ervas finas e leve mentolado. Paladar com boa tipicidade e equilíbrio entre taninos e acidez. Final de boca médio, mas bastante agradável. Um belo exemplar da região de Sonoma.

Calera Jensen Vineyard 2007 (Central Coast): visual rubi escuro, denso e brilhante, repleto de aromas de frutas vermelhas muito maduras, baunilha, terra úmida, leve amadeirado e discreta nota defumada. Paladar com um corpo rico, exuberante, cheio de fruta negra em compota e final muito intenso e sedoso. Mais um blockbuster de Parker (97 pontos), capaz da façanha de encher os olhos tanto dos "caçadores de pontos" como dos mais puristas apreciadores dos PN da Borgonha.

Para finalizar o painel "oficial" da degustação, descemos ao extremo sul das Américas para provar um  PN argentino feito na Patagônia, o bem conhecido Chacra 55, produzido pela família italiana de Piero Incisa della Rochetta.

Chacra 55 2008 (Patagônia): visual rubi médio e brilhante, cheio de aromas frutados e florais que se combinaram muito bem com um delicado traço herbáceo. Paladar rico, com taninos bem desenvolvidos e ótima acidez. Sedoso e longo no fim de boca, me impressionou positivamente desde a última vez que o provei. Um dos raros PN's argentinos dignos de nota.

A partir daqui, a degustação ganhou outra dimensão com a prova de duas duplas de vinhos muito particulares: um par de antigos (1992 e 1996) Savignys Les Beaune e um par de Grands Crus acima de qualquer suspeita: um Musigny e um La Grand Rue.


Os Savignys de Simon Bize"Aux Guettes" 1992 e Fery-Meunier "Ez Connardises" 1996, tinham sido previamente selecionados, com a missão de demonstrar o durabilidade desses 1ers Crus após tanto tempo de guarda (alcançando os 20 anos, no caso do 1992). Na prova, ficou claro que, pelo menos para estas garrafas, foi um pouco demais. Ainda havia um agradável bouquet de evolução nas taças, mas na boca, já começaram um lento processo de desequilíbrio entre a fruta, os taninos e a acidez. Valeu apenas pela experiência.

Talvez motivados pela decepção com estas duas garrafas, resolvemos dar um salto extremo em busca da decantada qualidade dos grandes Borgonhas e abrimos dois Grands Crus: o La Grand Rue (François Lamarche) 2004 e o estupendo Musigny (Jacques Prieur) 2001. Mas sobre esses, falarei num post subsequente...