quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Terroir Hunter, o ambicioso (e já bem sucedido) projeto vinícola da Undurraga!


Fundada em 1885, a Viña Undurraga é uma das mais antigas e tradicionais vinícolas chilenas, detendo atualmente quase 2.000 hectares de vinhedos espalhados pelas principais regiões produtoras do país. Porém, uma empresa familiar com mais de um século de história às vezes carece de um sopro de modernidade e de novos investimentos. Assim, no ano de 2006, a vinícola acabou sendo vendida, dando uma guinada total na imagem desgastada da vinícola dos vinhos das garrafas tipo "caramanhola".  

Garrafa "Caramanhola", antiga imagem da Undurraga

Um dos projetos mais inovadores e ambiciosos desta "nova" Undurraga chama-se T. H. (Terroir Hunter), onde uma equipe comandada por Pedro Parra, um dos mais renomados especialistas em terroir do mundo, faz uma busca minuciosa por "micro-terroirs" especiais nas melhores zonas vinícolas do Chile. Destes minúsculos vinhedos, pesquisados e cuidados nos mínimos detalhes, saem vinhos varietais capazes de expressar o máximo daquele terroir

Atualmente a linha de vinhos já em produção (algumas novidades estão ainda em fase final de testes) do projeto T.H. reúne 12 rótulos oriundos de 6 zonas diferentes: Limarí (Chardonnay e Syrah), Casablanca (Pinot Noir e Sauvignon Blanc), Maipo (CS e Syrah), Lo Abarca (SB e Riesling), Leyda (SB, Pinot Noir e Syrah) e Maule (Carignan).

Em recente oportunidade, degustei 11 destes 12 rótulos (apenas o Syrah de Leyda ainda não está disponível no Brasil), apresentados pelo sommelier chefe da Undurraga, Claudio Rosendo e pelo carismático proprietário da Abflug (importadora dos vinhos), Marcelo Toledo.


Iniciamos a degustação com um grupo de três Sauvignon Blancs (Leyda, Casablanca e Lo Abarca), incrivelmente distintos e muito bons dentro de seu estilo. Para tentar traduzir isso, diria que o SB de Leyda remete aos brancos do Loire, com sua profunda mineralidade e caráter levemente herbáceo. O SB de Casablanca é o mais "tradicional", similar a outros SB do Chile, repleto de frutas tropicais e menos herbáceo. Finalmente o SB de Lo Abarca, com seu estilo "Nova Zelândia", mesclando um pouco do estilo dos dois primeiros. Neste grupo, o meu predileto foi o SB de Leyda, mas todos eles apresentam alta qualidade.


Continuando com os brancos, provamos o Chardonnay (da espetacular zona de Quebrada Seca, no Limarí), um vinho bastante diferenciado de outros chilenos de sua casta, com ótimo caráter frutado e floral, com uma acidez vibrante e longe daquele estilo tradicional carregado de madeira e notas amanteigadas. O Riesling (Lo Abarca) parece ter sido o que menos se destacou entre os 5 brancos. Apesar de muito bem vinificado e saboroso ao paladar, não trouxe algo que o pudesse engrandecer. A Riesling ainda é um desafio no Chile, prova disso é o fato de que pouquíssimos produtores (uns 3 ou 4) elaboram vinhos com essa casta no país.


Iniciando os tintos, degustamos os dois Pinot Noirs (Leyda e Casablanca), vinhos diametralmente opostos. O primeiro é delicado, refinado, com acidez vivaz, enquanto o segundo é cheio de fruta madura, mais estruturado e levemente adocicado. Na preferência, fico com o de Leyda, Aliás, ele acaba de ser eleito o melhor Pinot Noir do mundo em 2012, dentre os participantes do Decanter World Wine Awards.

Seguimos para os dois Syrahs (Limarí e Maipo), ambos com muita tipicidade da casta, mas mais uma vez se diferenciando pelo frescor, destaque do Limarí, enquanto o do Maipo, como seria de se esperar, exalta a potência de uma zona mais quente. Para meu paladar, fico com o Limarí, mas reconheço que o Maipo vai cativar a maioria dos que os compararem.


Fechando a degustação, provamos o Cabernet Sauvignon (Maipo), vinho de um estilo que quase dispensa comentários, salvo por uma mineralidade inusitada que me cativou. Por último, degustamos o Carignan (Maule), uma casta soberba, mas que só dá o melhor de si após três ou quatro décadas de vida. As vinhas do Maule que elaboram este vinho já alcançaram os 50 anos de vida, trazendo todo caráter frutado, terroso e mineral que esta casta pode oferecer. Um vinho ímpar, indiscutivelmente um dos grandes desta casta no Chile.

Fica aqui a  sugestão para que você prove alguns destes vinhos na primeira oportunidade, podendo entender melhor como e por quê um terroir pode influenciar tão decisivamente no estilo e qualidade de um vinho.

Para mais informações sobre o projeto, acesse: www.th-wines.com