segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Impressões da inédita e histórica degustação dos vinhos de Marco Danielle (Tormentas e Minimus Anima)!

Tormentas 2002 e 2003 (sem rótulo) e Tormentas 2004 e Secundo 2004

Minimus Anima 2005, Tormentas 2006, Tormentas 2007 e Minimus Anima 2007

Degustar grandes vinhos de "garagem", feitos de modo quase artesanal e em quantidades minúsculas (que raramente ultrapassam um milhar de garrafas) já é um grande privilégio, imagine ter a chance de degustar 8 deles elaborados pelo mesmo produtor, alguns tão raros e experimentais que sequer tinham rótulos, reunidos numa única degustação. Pois foi isso tive a honra de proporcionar para um seleto grupo de felizardos presentes na última edição do Vinum Brasilis.


Os participantes desta inédita degustação foram Eugênio Oliveira e Antônio Coelho (Decantando a Vida), Petrus Elesbão (Vinum Brasilis), Didú Russo, Oscar Daudt (Enoeventos), Guilherme Rodrigues (revista Gosto), Pedro Hermeto (Restaurante Aprazível), Luís Zanini e Álvaro Escher (Era dos Ventos), Guilherme Mair (Vinum Animi Speculum), Duda Zagari (Confraria Carioca), Domingos Meirelles (Exponor) e, logicamente, Eu.

Antes de relatar minhas impressões sobre estes vinhos, cabe algumas colocações feitas pelo próprio Marco Danielle:
  • As versões 2002 e 2003 eram realmente experimentais e as rolhas eram simples, não dimensionadas para longa guarda (isso não foi problema, apesar de serem rolhas simples, de cortiça aglomerada, elas estavam vedando o vinho com perfeição);
  • Ele tinha receio quanto a durabilidade destes vinhos, notadamente os 2002, 2003 e 2004, pois ele não tinha uma referência recente de seu estágio de evolução (preocupação infundada: os vinhos estavam vivíssimos!);
  • A aeração foi fortemente recomendada, principalmente para os mais jovens (recomendação seguida à risca, com aeração de 4 horas antes do serviço para os vinhos de 2005, 2006 e 2007).
Impressões de degustação:
Os vinhos foram divididos em 2 grupos: Tormentas 2002, 2003 e 2004 + o Secundo 2004, no primeiro (todos 100% CS). No segundo, Minimus Anima 2005 e 2007, Tormentas 2006 e 2007.
Neste primeiro grupo foi uma grata surpresa perceber que todos eles estavam perfeitamente íntegros, sem qualquer sinal de oxidação, turbidez ou evolução acentuada. 

Tormentas 2002
100% CS de uvas de Caxias do Sul (Distrito de Ana Rech), das quais foram produzidas 285 garrafas. Bela cor rubi clara, com aromas ligeiros de frutas vermelhas, notas herbáceas e um toque de café. Na boca, mostrou-se com taninos bem finos, médio corpo e boa persistência. Para um vinho "experimental" e inaugural, sobreviveu com dignidade a uma década de vida.

Tormentas 2003
100% CS de uvas de Caxias do Sul (Distrito de Ana Rech), das quais foram produzidas 400 garrafas. Cor bem mais concentrada que o 2002, um rubi escuro com leve halo alaranjado. Aromas de frutas vermelhas, baunilha e notas ligeiras de pimenta negra se sobressaíram. Na boca, apresentou boa estrutura tânica e acidez ainda bem equilibrada. Fim de boca agradável e elegante.

Tormentas Secundo 2004
100% CS de Encruzilhada do Sul, com produção de 350 garrafas. O primeiro vinho "rotulado" de Marco Danielle (junto com o Tormentas Premium 2004) mostrou uma típica cor rubi ainda bastante intensa, com aromas frescos de cassis, ameixas e um gostoso toque defumado. No paladar, boa integração de taninos e acidez, com corpo médio e finamente equilibrado.

Tormentas Premium 2004
O mais raro dos vinhos de Marco Danielle, com apenas 141 garrafas produzidas a partir de uva de Encruzilhada do Sul.  O pretensioso nome de "Grande Caldo" sugeria um vinho de cor escura e muito concentrado na boca, algo quase confirmado. A extração de cor foi realmente grande, gerando um vinho de um púrpura ainda denso e concentrado. Aromas de ameixas secas, café, tabaco e especiarias se revezavam continuamente. Na boca, os taninos pareciam sobrepujar a acidez, mas lentamente essa impressão foi desaparecendo, tornando-o mais balanceado. Final de boca intenso e longevo. O melhor do primeiro grupo.

Minimus Anima 2005
Elaborado com um inusitado corte de 70% Cabernet Sauvignon e 30% Alicante Bouschet, do qual foram produzidas 1400 garrafas.
Bela cor rubi escura, aromas levemente doces de fruta confitada (a AB falando...), pimenta negra e nítido toque herbáceo. Paladar refinado e refrescante, com ótima expressão tânica. Final potente e com discreto amargor. Foi o preferido de grande parte dos degustadores presentes.

Tormentas Premium 2006
Esse foi o meu preferido dentre todos! Elaborado com um blend de Pinot Noir, Tannat, Merlot e Alicante Bouschet (produção de 1070 garrafas), me encantou com seus aromas cheios de camadas de frutas negras, mentol e ervas finas. Na boca, exibiu sabores ricos e densos de frutas maduras, com acidez equilibrada e um fim de boca bastante longevo.

Tormentas Premium 2007
Quase tão bom quanto o 2006, feito apenas com a casta Merlot (produção: 720 garrafas), com notas de frutas negras, baunilha e um toque floral. Boca macia, com corpo e taninos médios, formando um conjunto bastante aveludado, quase sem nenhum amargor.

Minimus Anima 2007
O mais exótico de todos, talvez graças a sua composição contendo 35% Tannat (passificada), 35% CS, 20% Alicante Bouschet, 10% Merlot (produção: 2600 garrafas). Cor rubi densa, quase negra, com aromas iniciais de banana, passas e baunilha. Macio e sedoso no paladar, mas um pouco carente de acidez, deixando-o com uma sensação discreta, sem uma maior complexidade, tão presentes nos demais vinhos.

No final das contas, o que valeu mesmo foi compartilhar estas pequenas "jóias" da viticultura artesanal brasileira, com um seleto grupo de amigos e grandes apreciadores do esforço daqueles que batalham para produzir o melhor vinho possível dentro das limitações dos diversos terroirs espalhados pelo sul do Brasil. Uma noite memorável para todos os presentes!