Rolhas perfeitas...
A expectativa de descobrir como evoluíram seis dos melhores vinhos argentinos da histórica safra 2002 chegou ao fim. Degustados na noite de ontem, vinhos do quilate do Catena Zapata Estiba Reservada, Poesia, Cobos Bramare Malbec Marchiori Vineyard, Cavas de Weinert, Yacochuya e O. Fournier A-Crux, puderam demonstrar como o passar de uma década influíram no seu amadurecimento.
Reunidos num restaurante especializado em carnes argentinas, o Argento Parrilla, os vinhos foram apresentados aos pares com os seguintes critérios: Poesia e A-Crux, vinhos de corte elaborados por europeus (Hélène Garcin e O. Fournier, respectivamente); Cobos Bramare Malbec Marchiori e Yacochuya (Malbecs típicos e muito potentes) e Catena Zapata Estiba Reservada e Cavas de Weinert (estilo mais clássico e gastronômico).
Poesia 2002
Elaborado com um corte de 60% CS e 40% Malbec de vinhas velhas com mais de 70 anos, amadureceu por 12 meses em barricas de carvalho francês novo. Mostrou-se em ótima forma, com aromas pronunciados de ervas finas, defumados e notas de madeira velha. Na boca, reforçou o caráter herbáceo, acidez refinada e taninos bem polidos, resultando num vinho muito elegante e refinado. Vinho pronto e no apogeu! Nota: 93 pontos (World Wine, R$299).
O. Fournier A-Crux Blend 2002
Resultado de um blend inovador (65% Tempranillo, 30% Malbec e 5% Merlot) e amadurecido por 17 meses em barricas de carvalho novo francês (80%) e americano, o A-Crux apresentou-se muito bem, com bons aromas de frutas negras, baunilha e notas florais. No palato, ótimo equilíbrio, boa acidez, mas com menos complexidade que eu esperava. Final de boca aveludado e bem persistente. Ainda tem alguns anos pela frente e pode evoluir. Nota: 91 pontos (Vinci, R$195).
Cobos Bramare Malbec Marchiori Vineyard 2002
Paul Hobbs elaborou este vinho com uvas 100% Malbec de um vinhedo selecionado (Marchiori) em Lujan de Cuyo, amadurecendo-o por 18 meses em barricas de carvalho francês (68% novo). As uvas colhidas extremamente maduras, resultaram em um vinho com 15% de álcool e grande concentração de taninos.
Aromas intensos de frutas negras, melado de cana, caramelo e notas ligeiras de menta. Na boca, potência e taninos "quentes" dominam o paladar apesar da boa acidez presente, num estilo que virou moda na Argentina desde então. Passados 10 anos de guarda, o conjunto mostrou-se bem integrado e menos enjoativo que o habitual. Final de boca macio e ainda bastante frutado. Nota: 91 pontos (Grand Cru, R$395 - safra 2007).
Yacochuya 2002
Produzido com a consultoria do badalado enólogo Michel Rolland na extrema altitude (2.035 m) de Cafayate (Salta), no norte da Argentina, o Yacochuya foi o primeiro vinho argentino a alcançar 95 pontos de Robert Parker (safra 2000).
Elaborado com 90% Malbec e 10% CS e amadurecido por 16 meses em carvalho francês novo, este vinho alcançou incríveis 16,1% de álcool nesta safra. O resultado disso no vinho é percebido no expressivo aroma alcoólico liberado (mesmo após 1 hora de decantação...) que domina os demais aromas presentes no vinho. No paladar, sabores xaroposos e de licor de cassis se sobrepõem em camadas como se o vinho ainda estivesse nos primeiros anos de vida. Dá a sensação de que não vai evoluir nunca... Nota: 88 pontos (Grand Cru, R$280 - safra 2007).
Cavas de Weinert 2002
Depois de passar pela "provação" de dois vinhos muito potentes e alcoólicos, seguimos para o terceiro e último par de vinhos: o Cavas de Weinert foi o primeiro deles. Feito com um blend de 40% CS, 40% Malbec e 20% Merlot, ele tem um estilo mais parecido com os vinhos do velho mundo, passando por um afinamento de 3 anos em grandes tonéis de carvalho francês usado.
De cor rubi média, seus aromas frescos de frutas vermelhas e especiarias dominam o olfato (ainda que de modo sutil), ele agrada tremendamente na boca, com fino equilíbrio entre taninos, teor de ácool e acidez. Clássico! Nota: 90 pontos (Inovini, R$88).
Catena Zapata Estiba Reservada 2002
Para fechar o painel e harmonizar com as deliciosas carnes argentinas preparadas no restaurante Argento, chegamos ao Catena Zapata. Elaborado com uvas 100% CS de Agrelo e amadurecido por 18 meses em carvalho francês (60% novo), este Catena estava sublime, em pleno apogeu aromático e gustativo. Aromas intensos de cassis e ameixas se fundiram com notas de grafite, couro e leve traço defumado. No palato, mostrou grande equilíbrio, com taninos finíssimos e acidez vibrante. Final de boca longevo e persistente. Um Cabernet Sauvignon de pura classe! Nota: 95 pontos (Mistral, R$389 - safra 2006).
O objetivo proposto, de avaliar a evolução, o desenvolvimento e potencial de guarda dos vinhos argentinos foi plenamente alcançado, com vinhos absolutamente íntegros e com alguns anos mais pela frente. Como resultado final, ofereceu um painel muito satisfatório da diversidade da produção vinícola da Argentina.
Aos que tiverem a chance de reunir algumas garrafas desta safra, recomendo fazer a experiência...