Certamente você já ouviu falar nas belezas naturais desta região do sul da França, nas cores, nos aromas e sabores das delícias gastronômicas mediterrâneas ali produzidas, mas você já degustou os vinhos do Languedoc-Roussillon?
Quando fiz esta pergunta a diversos apreciadores de vinho, desde consumidores eventuais até os mais experimentados enófilos, fiquei surpreso com o desconhecimento e até um certo "desprezo" da maioria pelos vinhos da região.
As diversas zonas vinícolas espalhadas pela região do Languedoc-Roussillon representam a maior área de vinhedos do mundo, com cerca de 292.000 hectares plantados, produzindo aproximadamente 12 milhões de hectolitros de vinho por ano.
Neste literal "mar de vinho" encontramos uma extensa diversidade de estilos, dos refrescantes espumantes de Limoux até os deliciosos vinhos doces e fortificados das regiões de Rivesaltes, Maury e Banyuls, passando pelos tintos frutados e perfumados baseados principalmente nas castas Syrah e Grenache.
Talvez aí resida o problema, além de serem "sombreados" por outras apelações francesas mais famosas, no meio desta imensa diversidade de vinhos, é difícil separar "o joio do trigo". Até poucas décadas atrás, o vinho da região era, em sua grande maioria, um vin ordinaire, sem qualquer atrativo e produzido por numerosas cooperativas interessadas apenas na quantidade.
No final da década de 1970, o Domaine Mas de Daumas Gassac, localizado em Aniane, mostrou ao mundo vitivinícola que a região era capaz de produzir grandes vinhos. Rotulado como um humilde Vin de Pays de l'Hérault, o Mas de Daumas Gassac passou a ser reconhecido como o "Grand Cru do Midi", pela excepcional qualidade apresentada. A partir daí, o "patinho feio" começou a ganhar os primeiros contornos de um futuro cisne.
Na semana passada, degustei deste mesmo produtor, o leve e frutado tinto Moulin de Gassac Guilhem 2010, um simples Vin de Pays, elaborado com Syrah, Grenache, Carignan e Cinsault, mas que apresentou um ótimo conjunto, repleto de aromas de frutas maduras e delicado frescor no paladar. Um estilo de vinho ideal para o consumo em regiões de clima mais quente, que pedem um tinto com acidez vibrante e frutas frescas.
Um recente reconhecimento de sua qualidade veio com uma destacada premiação, onde foi um dos 5 vinhos (e único da França) a receber a "Grand Gold Medal", no concurso Mondial Selections Bruxelles, na Bélgica.
Na mesma ocasião, provei outros dois vinhos muito particulares, o Canon du Maréchal Blanc 2009, do conceituado Domaine Cazes, expert na produção de vinhos doces como o Muscat de Rivesaltes; e um jovem Vin du Pays orgânico feito em Pic St. Loup, no Languedoc, chamado Le Loup dans la Bergerie 2010, elaborado com um exótico corte de Merlot, Grenache e Syrah.
O Canon du Maréchal Blanc chamou a atenção de imediato, produzido com Muscat e Viognier, seus exóticos aromas herbáceos e de maresia, já denotam sua potencial harmonia com frutos do mar e pratos à base de ervas, típicos da gastronomia local. Aliás, degustado na companhia de uma tapenade de azeitonas verdes e anchovas da L'Oulibo, harmonizou divinamente. Combinação ideal para os dias cálidos do verão.
O Le Loup dans la Bergerie, por sua vez, seduziu principalmente o paladar com sua cristalina expressão de frutas vermelhas, trazendo um refrescante sensação para a boca. Um vinho franco, sem complicações, perfeito para ser degustado em dias e noites quentes com a infinidade de petiscos que toda região oferece.
Para finalizar esse tour enogastronômico pelo Languedoc-Roussillon, fui até a adega para buscar um Muscat de Rivesaltes 2000, do renomado produtor Chapoutier, para escoltar torradas cobertas com uma deliciosa confiture de châtaigne (ou castanhas portuguesas, se preferir) do produtor Verfeuille.
Depois desse passeio sensorial pelo Languedoc-Roussillon e interessado em encontrar as outras "partes" que constituem este cisne, descobri no livro "1001 vinhos para beber antes de morrer", outros 11 vinhos da região (além do Mas de Daumas Gassac) que foram selecionados para compor a seleta lista do livro. Poderia parecer que são poucos rótulos, mas representam mais que todos os vinhos da Argentina (com 9 vinhos na lista) e o mesmo número que o Chile e a Ribera del Duero, na Espanha (também com 12).
Saiba quais são estes vinhos e reveja seus (pré)conceitos:
Tintos
Boire de Maurel Cuvée Sylla (Minervois)
Domaine Gauby Côtes du Roussillon-Villages Muntada (Roussillon)
Grange des Pères (Languedoc)
Mas de Daumas Gassac (Languedoc)
Château de la Negly La Porte du Ciel (Coteaux du Languedoc)
Prieuré de Saint-Jean de Bébian (Coteaux du Languedoc)
Domaine La Tour Vielle Cuvée Puig Oriol (Collioure)
Brancos
Le Soula Vin de Pays des Côtes Catalanes Blanc (Roussillon)
Domaine Matassa Vin de Pays des Côtes Catalanes (Roussillon)
Doces/Fortificados
Domaine de La Rectorie Cuvée Leon Parcé Banyuls (Banyuls)
Mas Amiel Maury (Maury)
Mas Blanc La Coume Banyuls (Banyuls)
Para finalizar, vale destacar que além de ser um fértil reduto de ótimos vinhos para se descobrir, este mesmo fator propicia que encontremos nas diversas áreas do Languedoc-Roussillon, produtos de qualidade diferenciada e por preços muito interessantes. Fica a dica: ouse experimentá-los e surpreenda-se!
Todos os comentários sobre os vinhos da região são bem-vindos!
