segunda-feira, 18 de abril de 2011

Direto da Taça: Château Palmer 1980, um inesperado sobrevivente de uma safra ruim!


Alguns costumam dizer que a "graça" nos vinhos está justamente nas surpresas encontradas e nos paradigmas e "verdades" derrubadas. Poucas vezes tive tão baixa expectativa diante de um grande vinho quanto deste Château Palmer 1980, um troisème grand cru classé da comuna de Margaux, em Bordeaux, na França.
Antes mesmo de me preocupar com a qualidade da safra (uma das piores dos últimos 40 anos), estava muito preocupado com o estado de conservação da garrafa, já há mais de 2 anos fora de adega climatizada, apenas protegido em uma caixa de madeira e isopor guardada na horizontal. Para piorar, apresentava um nível baixo, no meio do "ombro" da garrafa (infelizmente, na ânsia de abrir a garrafa, esqueci de fazer uma foto). Só me restava abrir a garrafa e confirmar sua decrepitude...
Cercado de acessórios (funil, decanter e saca-rolhas de lâminas e de 2 estágios), cuidadosamente retirei a cápsula, totalmente esbranquiçada (creio que devido ao chumbo em sua composição) e abri a garrafa com um saca-rolhas de lâminas, mas mesmo assim a rolha se partiu, obrigando-me a empurrar o restante da rolha para o interior da garrafa.
Agora, uma nova operação foi necessária: filtrar o vinho para o decanter com o auxílio de um guardanapo de algodão. Para minha grata surpresa, não sentiu nenhum aroma de oxidação durante a trasfega do vinho para o decanter (bom sinal...). Coloquei um pouco na taça e... voilá! Para meu absoluto espanto, o vinho estava vivo!


Impressões de degustação:
Cor vermelho atijolado, halo levemente alaranjado e reflexo aquoso. No olfato, aromas muito sutis de couro, café expresso e ervas (tomilho), que oscilaram na taça por quase uma hora, mas sempre com intensidade discreta. No paladar, taninos finos e moderados, acidez surpreendemente marcante e corpo bastante ligeiro. Poderia resumí-lo numa palavra que já os definia séculos atrás na Inglaterra: Clarete!
Este deve ter sido o vinho mais parecido com um Bordeaux dos séculos XVIII e XIX que já bebi. Lembro que em 1980, o gosto potente e encorpado de Robert Parker ainda não influenciava os produtores de Bordeaux ou os consumidores destes vinhos. Testado por ele em 1984, deu-lhe míseros 72 pontos, considerando-o um "Palmer de piquenique".
Pessoalmente, por ter resistido 31 anos na garrafa e ter sido tão pouco cuidado no seu final, atribuí-lhe 86 pontos (usando apenas atributos técnicos), mas na realidade este vinho é daqueles que estão muito além das notas, pois sobreviveu para contar em sensações visuais, olfativas e gustativas, a sua história! Entra para a minha seleta lista dos vinhos de que jamais me esquecerei...