quinta-feira, 28 de outubro de 2010

No Coração da Borgonha, na França, um roteiro que passa por vinhedos e restaurantes estrelados

DIJON, Borgonha - Não é à toa que a expressão "viver como um cidadão da Borgonha" é sinônimo de "saber viver". Afinal, são muitos os motivos que os moradores da região têm para se orgulhar de sua terra: o vinho, os restaurantes aclamados pelas publicações especializadas - só no Guia Michelin, são 26 restaurantes estrelados - a mostarda, seu patrimônio histórico com exemplares tombados pela Unesco e o passado rico de um lugar que viveu seus anos de glória como um ducado independente até o século XV, quando finalmente foi incorporado à França, sob o reinado de Luís XI. Dos monges que construíram ali suas abadias, e lá se vão quase mil anos, a região herdou a arte da produção de vinhos, alguns dos melhores do mundo.

Palácios, vinhedos e abadias em Dijon, Beaune, Montbard e Vézelay, na Borgonha
Uma visita a Borgonha nos leva a um mergulho profundo na cultura e na história da região, associado ao que a França tem de melhor: queijos, vinhos, boa comida, patrimônio arquitetônico. Aqui, traçamos uma amostra em um roteiro que parte de Dijon e se estende até Vézelay. Inclui trechos que podem ser percorridos de carro, em meio aos vinhedos da famosa Route des Grands Crus - onde são produzidos alguns dos melhores vinhos da França, e do mundo, entre eles o mítico e caríssimo Romanée-Conti - e pedaladas suaves na paisagem memorável da Voie des Vignes, nos arredores de Beaune, visitando châteaux, caves e vilarejos. Um roteiro que merece ser planejado com a calma e a paz de espírito que um circuito enogastronômico exige.

Você pode conhecer os vinhedos da Borgonha de carro ou de bicicleta. Na dúvida, escolha os dois. Saindo de Dijon de carro, a Route des Grands Crus se estende por 80 quilômetros até Santenay. Beaune fica no meio do caminho, e é ponto de partida para um inesquecível passeio de bicicleta pela Voie des Vignes, passando em vilarejos como Pommard. Nos dois casos, os vinhedos se estendem diante dos olhos, de um lado e de outro da estrada. Cansou de pedalar? Encoste a bicicleta, mire a cidadezinha que está à frente, ou uma casinha no meio dos lotes de vinhas, enquadre a câmera numa fileira, e agradeça aos céus pelo privilégio de estar ali. Mais adiante, faça uma paradinha para uma visita a um domínio de vinhos como Chassagne-Montrachet.
Pinot noir e chardonnay são as principais castas que resumem os vinhos da Borgonha - as duas uvas respondem por mais de 80% da produção na região. É ao longo da Route des Grands Crus que elas são cultivadas. Isso inclui o Romanée-Conti, Grand Cru produzido entre em Vosne-Romanée, em Côte de Nuits, alçado à categoria de mito.
- Difícil encontrá-lo por aqui. A garrafa pode custar até 3 mil euros, e é vendida somente num pacote, que inclui outras 11 garrafas de vinhos Grand Cru - conta Claude Guinchard, chefe do departamento de publicações do escritório de turismo da Borgonha, acrescentando que a fila de espera para conseguir a preciosidade é de cerca de um ano, e ele estima que a produção anual da bebida seja de cerca de cinco mil garrafas.
As propriedades abertas à visitação na Route des Grand Crus são identificadas por placas "De vignes en cave", onde os produtores oferecem ao visitante ao menos um vinho para degustação como cortesia, acompanhado de algumas explicações sobre a produção da bebida. O Château du Clos de Vougeot é mantido pela Confraria Chevaliers du Tastevin, que congrega atualmente, em 75 países, 12 mil membros (dos quais uns 70 no Brasil, o que justifica os planos de montarem uma representação em Porto Alegre).
A construção renascentista que se destaca na paisagem é do século XVI, uma adição ao prédio original. As origens do edifício datam do século XII, quando os monges da abadia de Cîteaux iniciaram ali a produção de vinhos. A visita às dependências do castelo, que foi reformado pela confraria após a Segunda Guerra, inclui uma espiada na prensa de uvas do século XV e no salão do século XII (antiga adega) onde acontecem os Chapitres (capítulos) da confraria.
Dali a Beaune é um pulo. Numa de suas casas de degustação, como a Sensation Vin, a sessão é acompanhada de uma apresentação sobre as quatro apelações da região, Grand Cru, 1er Cru, AOC Comunal e AOC Régional, que mostra exatamente em que terroir cada tipo de vinho é produzido. É de Beaune que se parte de bicicleta cruzando vinhedos e cidadezinhas como Pommard, com simpáticas caves de degustação.